Neste cantinho à beira mar plantado, em que comprar carro é uma verdadeira epopeia, optar por um coupé é quase um ato de heroísmo. Mas o A5 Coupé 2.0 TDI, o RC 300h e o C 250d Coupé provam que é possível adquirir um automóvel mais apaixonante sem arruinar as finanças ou provocar uma guerra civil no seio do “reino” familiar.

Como tantos miúdos nascidos nas décadas de 70 e 80, cresci a sonhar com coupés. E nem sequer precisava de um coupé de sonho, como um Ferrari ou um Porsche. Qualquer coupé ganhava o estatuto de aspiracional aos olhos de um jovem que contava os dias para poder tirar a carta e que se “babava” a olhar para o Celica do vizinho da rua. Hoje, parte da “mística” parece ter-se diluído na quantidade de sub-nichos em que qualquer SUV, com a traseira inclinada, ganha a designação “coupé”, ou uma berlina de perfil mais esguio passa a ser um “coupé de quatro portas”. Mas os verdadeiros coupés de duas portas continuam aí e, como as três propostas aqui presentes, não são, necessariamente, automóveis egoístas, desprovidos de argumentos racionais e que obrigam a hipotecar a casa, a sogra e o periquito, só para o comprar e, depois, manter. O novo A5 Coupé é o exemplo acabado disso mesmo. O desenho, mesmo não sendo dos mais ousados, é inegavelmente elegante, há espaço para quatro adultos e uma bagageira que faria inveja a alguns familiares médios. Depois, o motor 2.0 TDI de 190 cv garante prestações que em nada desmerecem um “desportivo”, mas mantém os consumos comedidos a que os tempos de “austeridade” ainda convidam. O C 250d Coupé apresenta quase os mesmos atributos, mas tem um motor 2.1 ainda mais poderoso e uma “curiosidade” invulgar e tentadora: é mais barato do que a berlina convencional. É verdade que a diferença ronda os 200€, mas se não precisar de transportar amiúde quatro adultos pode ter um Classe C 250d mais barato, mais atraente e que não é igual ao de todos os “colegas” da empresa. Mas se algum dos três abraça com fulgor o espírito coupé é o Lexus RC. Não só as linhas, goste-se ou não, são as mais vincadas e agressivas, como é o único com motor a gasolina. Mas não é um “gasolina” qualquer, para se enquadrar no critério “economocista” que delineámos, optámos pelo RC 300h, que combina um quatro cilindros 2.5 com um motor elétrico. Esta solução tecnológica tem vantagens e inconvenientes, mas já lá vamos...

Como referimos, apesar do estilo coupé, o A5 é o mais espaçoso e o banco traseiro acomoda, com relativo conforto, dois adultos. A bagageira, com 465 litros de capacidade, não só é a maior entre os presentes como vê a versatilidade reforçada pelo rebatimento (através de alavancas no espaço de carga) dos bancos numa proporção 40:20:40.

O Mercedes-Benz segue o Audi de perto, embora o espaço atrás não seja tão generoso e a capacidade da mala tão grande. Ainda assim, o interior do C Coupé é um lugar muito “especial”, não só pelo desenho, mas também pela qualidade geral e atenção ao detalhe. O Lexus é penalizado pela falta de harmonia na escolha dos materiais (do muito bom ao mediano) e texturas, mas também pelo vincado perfil coupé da carroçaria, que penaliza não só o espaço atrás (especialmente em altura) como dificulta sobremaneira o acesso a estes lugares. A mala não só é a mais pequena como, a necessidade de acomodar as baterias, limita ainda mais o espaço face, por exemplo, ao congénere RC 200t.

Para “compensar”, o Lexus é imbatível na relação preço/equipamento. Para se ter uma ideia desta vantagem, é possível ter o mais equipado dos RC 300h (F Sport+) por menos 4000€ do que o A5 Coupé 2.0 TDI considerado neste comparativo. Sendo que esta versão não só erradica os lapsos do Executive+ em itens como a segurança, como acrescenta uma lista de equipamento de conforto quase infindável. Até contempla a suspensão pilotada, embora, justiça seja feita, o RC 300h Executive+ apresente uma relação conforto/comportamento muito tentadora. Nesse aspeto o A5 Coupé deixa a desejar já que, embora apresente um excelente comportamento, fá-lo à custa do conforto de rolamento. Nada que o controlo de amortecimento não resolva, embora este obrigue a despender mais 1150€. Já o Mercedes-Benz continua igual a si próprio. A facilidade de condução é a nota dominante e embora a suspensão seja branda numa toada mais agressiva (mesmo nesta especificação AMG 15 mm mais baixa), as reações são sempre progressivas e a tração traseira é sempre um argumento, quanto mais não seja pela ausência de perdas de motricidade e de “efeitos” nefastos na direção que afetam (ou podem afetar) um tração à frente. O Lexus RC partilha esta arquitetura de transmissão, com a vantagem adicional de permitir desligar totalmente o controlo de estabilidade (com o carro parado). Nestas ocasiões só daríamos por bem-vindo um autoblocante e, já agora, um conjunto motriz mais pujante. É que, apesar dos anunciados 223 cv de potência combinada, as prestações do RC 300h são afetadas pelo limite de rotação do motor elétrico (o trem epicicloidal só tem uma “relação” pelo que a velocidade máxima é limitada aos 190 km/h) e pelo excesso de peso. Na prática, o RC 300h é invulgarmente refinado a baixos e médios regimes e em velocidades estabilizadas até aos 130 km/h. Em aceleração pura ou acima dessa velocidade, o ruido do motor não é acompanhado pelo da velocidade, dando origem ao tradicional desfasamento que ocorre nas caixas CVT, por exemplo. A grande vantagem do sistema híbrido é que é possível ter um coupé a gasolina e fazer uma condução normal a gastar pouco mais de 7 l/100 km ou andar em cidade a gastar menos de 6 l/100 km. O Mercedes-Benz gasta ligeiramente mais, mas tem a vantagem do combustível mais barato, pelo que as diferenças diluem-se por completo se conduzir num traçado misto (estrada aberta e cidade). Ainda assim, e feitas as contas, o Audi é o mais poupado dos três, o que é tanto mais meritório quando sabemos que a economia de combustível não é obtida à custa das prestações. Nem o C 250d, com um 2.1 biturbo mais potente (204 cv) e com 500 Nm de binário, bate o A5 Coupé 2.0 TDI de 190 cv, que tira ainda partido do menor peso do conjunto e da rapidíssima caixa de dupla embraiagem (S Tronic) para se impor na relação entre o que anda e o que gasta. A grande virtude do Audi é mesmo esta capacidade de cumprir vários propósitos ao mesmo tempo, conseguindo agradar à vista e apelar ao coração sem arruinar a carteira ou penalizar a utilização. O que num coupé nem sempre é possível conciliar.

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