Para quem já esteve ao volante do SLS AMG no circuito de Paul Ricard, esta segunda oportunidade de o guiar, desta vez nas nossas estradas, é o reviver de um sonho.

O engano foi meu. Vim de Paul Ricard convencido de que tinha acabado de encontrar o meu desportivo de eleição, mas, na hora de fechar o artigo sobre o Mercedes SLS AMG, esqueci-me de alterar a classificação e fechei o artigo com os 3,5 “smiles” que se atribuem por defeito. O Presidente da Mercedes-Benz Portugal, Carsten Oder, comentou o sucedido de forma quase humorística, dizendo que teria o maior prazer em que voltasse a guiar o SLS para desfazer qualquer equívoco. E foi assim que me veio parar às mãos o primeiro dos novos “Asas de Gaivota” a chegar a Portugal. Lá terei de saber como se comporta o SLS nas nossas estradas. Que chatice…

“Mera coincidência”
De início, e perante os comentários ao estilo revivalista do SLS, os responsáveis da AMG fizeram questão de defender que as parecenças com o mítico SL “Asas de Gaivota” de 1954 são apenas meras coincidências decorrentes de um “layout” muito semelhante, com o motor atrás do eixo dianteiro e o habitáculo bastante recuado… A verdade é que quando aquelas portas se erguem, o mundo à nossa volta entra em síncope, tal como há mais de meio século perante as “Flechas de Prata” que singraram no automobilismo nas mãos de Hermann Lang, Rudolf Caracciola e Karl Kling. O SLS é uma excelente reinterpretação desse vitorioso Mercedes do antigamente, mas o toque nostálgico não o impede de projectar uma imagem sofisticada e plena de carácter, sendo mesmo mais convincente que o SLR McLaren. Por metade do preço, o SLS dá-lhe o que o seu antecessor nunca conseguiu atingir: a excelência dinâmica.

Em solo nacional
O primeiro SLS AMG “nacional” pertence à Mercedes-Benz Portugal e a soma dos opcionais instalados (26 378 euros) daria para comprar um bom familiar compacto Diesel. Os que realmente influenciam a apreciação dinâmica são a suspensão desportiva (1573 euros) e as bacquets (4235 euros), tudo o resto é adorno e pode dizer-se que a configuração base do SLS chega perfeitamente para que desfrute da condução em pleno.

Como já o tinha ensaiado em França, é com naturalidade que me instalo aos comandos do SLS, mas o fotógrafo Pedro Lopes constata dolorosamente que as portas ficam mesmo ao nível da cabeça – com o tempo, habituamo-nos a abandonar o habitáculo numa deselegante vénia para evitar danos físicos. A bacquet tem um encaixe formidável, mas não sobe nem permite inclinar as costas, motivo pelo qual mal vejo a estrada e sou forçado a adivinhar onde acaba a frente.

Felizmente, sei que estão lá os sensores de estacionamento para ajudar nas manobras e o som do motor apaga qualquer crítica apontada até ao momento: em aceleração, o V8 recria uma abafada rajada de metralhadora e os escapes trovejam sempre que o pé larga o acelerador. Com uma banda sonora destas, alguém irá apreciar das virtudes acústicas do Hi-Fi da Bang & Olufsen (7502 euros)?

Na ponta dos dedos
O SLS, como qualquer super-desportivo que se preze, é de uma complexidade tecnológica que daria para lançar foguetes para o espaço, mas a condução está longe de ser um bicho de sete cabeças. É certo que os quase dois metros de largura e o facto de estar enterrado nesta bacquet intimidam naqueles primeiros minutos, mas o poderio mecânico gera uma progressão desprovida de hesitações e, entre todas as caixas de dupla embraiagem que já testámos, a AMG Speedshift DCT-7 é das que proporciona os arranques mais suaves. Os travões doseiam-se facilmente, mesmo com o pé esquerdo, e a ligeireza da direcção também vem desdramatizar o momento, mas quem é que consegue manter a calma sabendo que tem 571 cv debaixo do pé direito?

Neste reencontro, é aos poucos que me vou acostumando à rapidez com que a frente reage ao volante, à ausência de rolamento da carroçaria e à secura do pisar. Aliás, neste último ponto, o 13-IZ-98 difere ligeiramente da unidade testada em França, com a suspensão desportiva a dificultar a absorção do mau piso e a potenciar a propensão da frente para “farejar” as imperfeições do asfalto, exigindo mais correcções de volante. Por agora, com o ritmo ainda calmo, este parece ser um opcional dispensável…

A caixa tem quatro modos de actuação: C, S, S+ e M. O primeiro torna o acelerador inerte e está tão focado nos consumos que engrena a 7ª ali mesmo ao virar da esquina, entorpecendo o vigor do SLS a ponto de irritar! O melhor é seleccionar S+ assim que ligar o motor, ao contrário do que se poderia julgar, os momentos das trocas estão bem ajuizados e as reduções fazem-se com um judicioso ponta-tacão que é um regalo para quem gosta de ouvir motores.

A temperatura aquece…
Já deu para perceber que o ritmo está a aumentar e que o SLS “português” e eu estamos a chegar a uma base de entendimento. Explorar todas as suas qualidades em estrada aberta seria um bilhete de ida para os domínios da insanidade e o amortecimento particularmente firme desta unidade torna-a mais apta aos trajectos de alta velocidade – que a asa retráctil ajuda a abater com desdém – e às estradas com bom piso. Os maiores desafios surgem nos troços sinuosos com asfalto irregular, onde o SLS exige convicção nas acções… e muita fé.

Tudo na dinâmica deste carro surge em doses maciças, desde a capacidade de travagem – curiosamente, ao contrário da impressão deixada pela aventura francesa, nota-se apenas um ligeiro alongamento do curso do pedal que não gera calafrios – à aderência da frente, que parece desconhecer o conceito de subviragem. A imensa motricidade do eixo traseiro obriga a rodar acima das 4000 rpm para que o acelerador possa intervir no rumo do SLS em curva. Contudo, a combinação de um amortecimento muito firme com a elevada aderência dos Continental ContiSportContact 3 gera um pronunciado ângulo inicial de deriva que pede correcções rápidas de direcção, sendo que o volante não é especialmente comunicativo nestes momentos.

Ainda que o SLS tenha todo o potencial para executar vistosos “powerslides”, exige espaço e curvas médias onde as velocidades de passagem já assustam… O melhor mesmo é abusar um pouco da travagem e prolongá-la para o interior da curva, deixar que a traseira se aligeire e aproveitar esse momento para influenciar a atitude com o acelerador. E tudo isto se passa a ritmos alucinantes, só possíveis num carro tão equilibrado e dotado de um motor colossal, que me aquece a alma só com o poder da voz. O V8 é, muito provavelmente, o ponto fulcral na atitude do SLS e o 13-IZ-98 só vem reforçar a minha total adoração por este “clássico instantâneo” da Mercedes. Pensando bem, só não leva cinco smiles porque a caixa AMG Speedshift DCT-7 teima em não fazer as reduções quando quero…

 


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