As linhas do novo SLK podem agradar a muita gente, mas este pequeno roadster Mercedes não é para qualquer um. Despido de opcionais, já custa mais de 50 mil euros e, mesmo a variante de acesso à gama, tem um travo a picante como nunca experimentámos nas anteriores gerações.

No momento em que agarro as chaves do SLK e me preparo para sair da redacção, ouço alguém dizer que “eles dão chuva para o fim-de-semana”… Bonito. Afiguram-se três dias ao volante de um roadster sem a oportunidade de abrir a capota rígida, que sempre foi – e continua a ser – o ex-líbris deste Mercedes. E está mais sofisticada do que nunca, com a leve estrutura em magnésio e o inovador Magic Sky Control, uma tecnologia semelhante às dos ecrãs LCD que escurece o vidro superior com um toque de botão. Contudo, como esse é um dispendioso opcional (3290 €) que só estará disponível no final do ano, vou ficar a ver os pingos de chuva a cair no tejadilho de policarbonato (664 €), outra das novidades desta nova geração.

Lá fora está um SLK 200 cinzento “tenorite”, a condizer com o tom escuro do céu. Apesar da Mercedes não o anunciar declaradamente e de não haver a partilha de um único painel de carroçaria com o anterior modelo, é esse que lhe serve de base e nota-se alguma familiaridade nas proporções, mas as semelhanças entre antigo e novo acabam aí. A orientação estilística toma outro rumo, com o SLK a esquecer a frente pontiaguda do SLR McLaren para aderir ao visual dos Mercedes mais agressivos da actualidade, como o SL e o SLS: a grelha é muito aberta e o seu perfil vertical torna o capot numa vasta e ameaçadora superfície de metal, há um novo rasgo que se prolonga dos guarda-lamas dianteiros para as portas e a traseira está ligeiramente mais esculpida.

Os diversos elementos do kit AMG (5289 €) – jantes de 18 polegadas, pára-choques e “saias” de aspecto anguloso e suspensão rebaixada em 10 mm – reforçam esta nova expressão de poder, ainda que, na verdade, o SLK 200 continue a oferecer 184 cv. O que a manutenção deste número oculta é a remodelação mecânica levada a cabo pela Mercedes, que passou a adoptar um sistema de injecção directa e deixou de lado o compressor, em favor de um turbo de geometria fixa. O binário máximo é agora de 270 Nm disponíveis das 1800 às 4600 rpm – antes tinha 250 Nm das 2800 às 5000 rpm – e a inclusão do “Stop/Start” promete aligeirar os consumos em cidade. Outro novo argumento é a caixa automática de sete velocidades 7G-Tronic Plus, que passa a estar disponível no SLK 200.

AMBIENTE SLS
Até do lado de fora se vê que o volante está “torto”. A coluna de direcção fica desalinhada do eixo longitudinal do carro e, para que isso não interfira em demasia com a postura do condutor, o próprio banco parece ter rodado uns 5º para a direita… Felizmente, nada disto é assim tão notório quando me instalo aos comandos do SLK e este “detalhe” acaba por cair no esquecimento num ambiente a bordo muito cativante, que habilmente combina uma aura clássica com o elevado teor de sofisticação dos Mercedes actuais. E há qualquer coisa de “dejá vu” neste habitáculo, com a consola central maciça, o tablier muito horizontal e os ventiladores circulares de aspecto metálico a fazerem crer que partilha componentes com o SLS.

Tal como lá fora, também no interior do SLK se notam as melhorias introduzidas pelo kit AMG, desde a pele perfurada do volante, ao fundo da instrumentação com efeito de malha de carbono, sem esquecer os cintos de segurança vermelhos a condizer com o pesponto das costuras dos bancos, dos painéis das portas, do volante e do selector da caixa – quem achar que é vermelho a mais, a Mercedes propõe os cintos pretos sem custo adicional. E os bancos em pele, como não podia deixar de ser, são opcionais (1937 €).

CHUVA MALDITA
A chuva persiste e não dá qualquer chance de destapar o habitáculo, mas os encantos do SLK vão para lá da condução a céu aberto. Para começar, é bem mais prático do que seria de exigir de um pequeno descapotável, com uma bagageira muito aceitável – especialmente agora, que a capota vai fechada – e bons espaços de arrumação em redor do condutor. O 1.8 turbo tem o ronco trabalhado para criar uma atmosfera acústica “especial”, mas sem nunca entrar em exageros, e o Stop/Start cala-o sempre que o SLK se imobiliza – pela regularidade e suavidade de funcionamento, este é dos melhores sistemas que já ensaiámos. A disponibilidade mecânica a baixos regimes é bem aproveitada pela caixa automática, que é um verdadeiro bónus na condução citadina, com o selector de manuseio intuitivo e a suavidade do engreno a tornarem o SLK muito dócil. Ou melhor, tão dócil quanto se pode ser com um amortecimento ultra-firme e pneus de perfil hiper-baixo… Esta combinação de suspensões rebaixadas com jantes de 18 polegadas, cortesia do kit AMG, deixa bem claro que o seu intuito não é promover o conforto dos ocupantes.

Pela forma despachada como se move e pela rapidez com que reage aos comandos, o novo modelo parece ter algo mais para dar do que o anterior SLK 200. Não é preciso guiá-lo com a faca nos dentes para senti-lo mais expedito, tanto na resposta ao acelerador como na obsessão com que a frente se inscreve em curva, pedindo menos volante para descrever os mesmos arcos e com oscilações longitudinais e transversais menos evidentes que na anterior geração.

O MELHOR DE SEMPRE
A bem deste teste, “eles” estavam enganados e o Sol decide aparecer. Estrutura da capota em magnésio, tejadilho em policarbonato, capot e guarda-lamas dianteiros em alumínio… O uso de materiais leves é mais uma das novidades do SLK e vem beneficiar a dinâmica e a eficiência, mas também está a dificultar o início das medições Autohoje, pois não encontro um pedaço de chapa onde o íman do GPS se fixe convictamente. Resolvida a questão, o SLK 200 lança-se para um registo de performance muito convincente, colocando-o ao nível de rivais, teoricamente, mais poderosos. Acelera taco-a-taco com o Z4 sDrive 23i, o qual anuncia mais 20 cv, a caixa 7G-tronic faz um bom serviço nas retomas de velocidade e o sistema de travagem com discos dianteiros perfurados assegura distâncias de imobilização curtas, um bom tacto de pedal e resistência à fadiga.

Com o alcatrão seco, confirmam-se as suspeições criadas em piso molhado: nunca o SLK esteve tão focado na estrada como nesta geração. O andamento criado pelo 1.8 turbo já põe à prova as qualidades dinâmicas deste roadster e o condutor compreende que tem nas mãos um carro leve e muito sólido, que entra nas zonas mais serpenteantes sem acumular inércia nem dar mostras de esforço estrutural. A frente crava-se naturalmente nas linhas traçadas pelo volante e a colocação recuada do habitáculo amplia a percepção das derivas do eixo traseiro, o qual se vai soltando progressivamente para agilizar o posicionamento do SLK em curva.

Infelizmente, a direcção “paramétrica directa” (438 €), o ESP e a 7G-Tronic impedem-no de atingir a excelência dinâmica. A primeira torna-se excessivamente pesada com o SLK já em apoio, com um corte de assistência demasiado evidente, o ESP não permite explorar o lado mais “brincalhão” deste tracção traseira sem dar um “puxão de orelhas” ao condutor e a caixa automática, mesmo com as patilhas no volante, ainda demora a acatar o que lhe é ordenado. Ainda assim, estes caprichos acabam por ser pormenores num todo muito convincente. Mais ágil que o BMW Z4, menos artificial no tacto que o Audi TT Roadster e quase tão resoluta como o Porsche Boxster, a terceira geração do Mercedes SLK reforça a ideia de que a emoção da condução também é um dos seus atributos. Como se exige de um verdadeiro roadster.

 


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